Axé Artigos Religiosos

21 de julho de 2026 • Axé Artigos Religiosos

De onde surgiu o ritual de “riscar o ponto” nos terreiros? Entenda a Pemba, o ponto e o sentido energético

De onde surgiu o ritual de “riscar o ponto” nos terreiros? Entenda a Pemba, o ponto e o sentido energético

Você já reparou como, em um terreiro, o gesto de riscar o ponto costuma vir carregado de intenção? A Pemba (o giz/traço usado em muitos contextos) aparece em momentos em que as entidades incorporadas, por meio de seus médiuns, “marcam” o trabalho espiritual. Para além do visual, esse ritual comunica e orienta: prepara o espaço, delimita ações e ajuda a concentrar forças conforme o tipo de giras e comandas. E, mesmo que cada casa tenha seus modos, existe um sentido comum que faz você entender por que esse gesto é tão importante.

O que é a Pemba e qual é o papel dela no “riscar o ponto”

A Pemba, em linhas gerais, é um instrumento utilizado em práticas de terreiro — frequentemente como giz/traçado — para registrar sinais gráficos no chão ou em locais específicos. Quando uma entidade risca um ponto, a ação não acontece “por acaso”: ela costuma estar ligada ao tipo de trabalho, ao momento da gira e à condução espiritual do Pai/Mãe de Santo e da assistência.

Na Umbanda, o ponto funciona como uma linguagem. Pode ser um ponto riscados no chão, um ponto cantado, ou um conjunto de sinais que se relaciona ao guia, ao orixá correspondente, ao objetivo do trabalho e às vibrações envolvidas. Já o riscar com Pemba tende a reforçar essa “leitura espiritual” do espaço e do instante.

Em muitas casas, você vai perceber que:

  • O riscar do ponto aparece em trabalhos de campo aberto, seja para organização do ambiente, seja para definição do que será realizado.
  • A Pemba costuma ser usada com cuidado, respeitando ordem, comando e fundamentos do terreiro.
  • O gesto tem caráter ritual: não é só um desenho, é parte do processo.

“Abrir comunicação” ou “abrir portal energético”

Quando você ouve alguém dizer que o ponto “abre um portal de comunicação” (ou “abre comunicação energética”), a expressão aponta para a ideia de alinhamento entre planos. Em vez de ser um “portal” literal e isolado, a leitura mais coerente dentro da tradição é: o ponto ajuda a criar condições de trabalho — como se o terreiro “ajustasse a sintonia” para o que vai acontecer na gira.

Por isso, em casas sérias, o riscar não vira espetáculo. Ele acontece com finalidade e é conduzido por quem tem responsabilidade espiritual e comando dentro da casa.

De onde pode vir a origem desse gesto ritual

Falar de “origem” exige cuidado. A Umbanda se formou historicamente a partir de encontros, adaptações e influências que atravessaram povos africanos, tradições de matriz afro-brasileira e, mais tarde, outras contribuições culturais. Assim, é possível entender o riscar do ponto como algo que não nasceu do nada: ele é herdeiro de práticas ritualísticas mais antigas, que usavam traçados, marcas e sinais para organizar a força, delimitar territórios e estabelecer comunicação com o sagrado.

Em tradições afro-brasileiras, o ato de marcar o espaço com símbolos, linhas ou elementos visuais é comum como forma de:

  • definir um “limite” ou uma área de atuação;
  • indicar um tipo de energia que está sendo mobilizada;
  • favorecer a concentração do grupo (muito importante em giras);
  • tornar o ritual reconhecível e repetível com consistência.

Na Umbanda, o ponto ganha uma identidade própria, conectada à dinâmica dos orixás, das falanges e das entidades (guias) que atuam no terreiro. Então, quando você vê a Pemba riscar o ponto, está vendo um gesto que reaparece com função espiritual clara: indicar, ordenar e preparar.

Por que a tradição preserva o “como” e não só o “por quê”

Uma característica dos terreiros é que o fundamento não é apenas um conceito; ele é procedimento. O “como” importa tanto quanto o “por quê”. Você pode entender isso quando compara:

  • um terreiro que respeita sequência, respeito e tempo de gira;
  • com um lugar em que a prática vira improviso sem comando.

O riscar com Pemba, por ser um gesto ritual, reforça a “memória do axé” dentro da casa. Assim, o aprendizado não é somente decorar desenho — é compreender finalidade e responsabilidade.

Sentido espiritual do ponto: delimitação, firmeza e trabalho

Na prática do terreiro, o riscar do ponto pode cumprir múltiplas funções — e elas variam conforme a casa, o guia que trabalha e o tipo de corrente do dia.

1) Delimitar e organizar o espaço de trabalho

Quando o ponto é riscado, ele pode ajudar a organizar o ambiente energético. Pense no terreiro como um campo de trabalho: há um antes, um durante e um depois. A marcação favorece que a equipe espiritual e os médiuns mantenham atenção e condução.

2) Sintonizar vibrações e fortalecer a firmeza

Em muitas narrativas de terreiro, o ponto também está ligado à firmeza: sustentar a conexão, dar direção e manter coesão durante a incorporação e o atendimento. Isso conversa com a própria lógica da Umbanda: o axé não é “solto”, ele é conduzido.

3) Ajudar na concentração do grupo

Além do plano espiritual, existe o plano humano e ritual. Você sabe que uma gira envolve corpo, voz, respeito ao ritmo, pontos cantados e harmonia. Ao ver o sinal sendo riscado, a assistência entende: “agora começa o fundamento”. Isso diminui dispersão e fortalece o alinhamento.

4) Reconhecer “o que está sendo feito” naquele momento

O ponto funciona também como linguagem de reconhecimento. Quando uma entidade risca determinado ponto, ela costuma apontar para o tipo de trabalho que será desenvolvido. Por isso, os sinais têm relação com o conjunto da gira: não é uma ação isolada.

Cuidados importantes: o ponto não é brincadeira e não se improvisa

É aqui que você precisa ter cautela. O fato de o gesto ser visível (giz, traço, desenho no chão) pode levar alguém a achar que qualquer um pode “riscar ponto” em casa. Mas na Umbanda, o que está em jogo não é apenas estética — é responsabilidade espiritual.

Em termos práticos, você deve considerar:

  • Aprenda com orientação do seu Pai/Mãe de Santo ou com a direção espiritual do terreiro.
  • Não tente “abrir comunicação” ou fazer “trabalhos por conta” fora de um acompanhamento responsável.
  • Respeite os limites da sua etapa mediúnica: desenvolvimento espiritual é processo.
  • Se você não sabe a função de um ponto, não replique. Pergunte e entenda antes.

Isso não significa que você não pode estudar. Você pode e deve buscar conhecimento — mas a prática com Pemba e pontos, como ritual, precisa de contexto e fundamentos.

Perguntas Frequentes

Riscar o ponto com Pemba é igual em todos os terreiros?

Não. Embora a ideia de riscar pontos exista em muitos lugares, a forma, o momento e o significado podem variar conforme os fundamentos da casa, o tipo de gira e a orientação espiritual. O ideal é você observar como o seu terreiro conduz e perguntar sobre o sentido do que é feito.

“Abrir portal” significa fazer algo perigoso ou incontrolável?

Na visão do terreiro, a expressão aponta para alinhamento e condições de trabalho espiritual. Isso é conduzido dentro de regras, respeito e comando, não como uma ação impulsiva. Por isso, sem orientação, o risco aumenta — não é um passo “por curiosidade”.

Posso riscar ponto em casa para ajudar meus caminhos?

Você pode estudar símbolos e fundamentos, mas executar o ritual sem orientação geralmente não é recomendado. Umbanda é tradição de terreiro: o axé é cuidado com responsabilidade, e práticas rituais precisam de direção espiritual. Busque primeiro acompanhamento e entendimento.

Quem decide qual ponto será riscado durante a gira?

Em geral, quem está no comando espiritual orienta a dinâmica da gira, e as entidades incorporadas atuam dentro do fundamento do trabalho. Por isso, a escolha não é aleatória: existe relação com a proposta daquele momento e com a condução do terreiro.

A história desse ritual tem uma “data de origem” definida?

Não existe uma data única e incontestável. O que dá para afirmar é que a prática de marcar o espaço com sinais e símbolos tem raízes em tradições ritualísticas afro-brasileiras, e a Umbanda organizou isso dentro do seu próprio sistema de pontos, guias e fundamentos.

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